Ele gosta de noivas. Ainda tem catorze anos, mas já sabe o que quer. Lembra-se de seus dez anos, quando uma mão feminina, direita, com aliança no dedo anular, lhe acariciou as partes íntimas. A jovem tinha dezenove anos e era prima de um vizinho. Era a festa de aniversário dele. Ela não conhecia o menino até aquele dia. O viu, achou bonitinho e o chamou, sem ninguém ver, para um canto isolado na casa, um dos banheiros. Ela o levou para dentro, fechou a porta, abaixou-lhe as calças e as cuecas e levou a mão direita até a genitália do menino. Daí em diante, fez as carícias. Foi a primeira (e, até hoje, única) em que alguém o masturbou. Ele já tinha se "explorado" algumas vezes, mas era a primeira vez em que sentia prazer. Até hoje ele se lembra dos detalhes daquele dia: dos olhos azuis, da pele alva, das sardas que lhe circundavam o rosto de traços suaves, dos cabelos escuros e longos, do ar de menina sapeca disposta a aprontar a qualquer momento. Ela não levantou a blusa, mas viu que os bicos dos seios (que não eram grandes, mas fartos) estavam rígidos. Se lembra do "beijinho de boa noite" (uma maneira meiga dela falar, antes de levar a boca ao sexo dele) poucos segundos antes do primeiro orgasmo de sua vida. E, além de tudo, se recorda do reluzentemente dourado anel de noivado que ela usava no dedo anular da mão direita, tanto durante as carícias quanto depois delas - quando ela lhe lavava as partes íntimas, enquanto ela o ameaçava ("Gostei de você. Você tem uma piroquinha que dá vontade de chupar e não largar mais. Sua 'agüinha' foi muito gostosa. Mas se você contar alguma coisa, te mato", disse-lhe ao pé do ouvido, com voz tão suave que nem parecia uma ameaça, antes de lhe dar um estalado beijo no rosto. Mesmo assim, decidiu não arriscar). A tal noiva (que, depois ele soube, se chamava Letícia) se casou quatro meses depois, com um fuzileiro naval. Dizem que está grávida do primeiro filho.
Voltando aos tempos de hoje, está explicado o gosto do menino por noivas. Aquele curto período entre o namoro e o noivado de uma garota lhe tinha uma importância fundamental. Nos últimos dois anos, duas jovens noivas lhe ocuparam o coração. Uma delas era a vendedora de doces da rua onde morava. Era uma jovem mulata de cerca de vinte e cinco anos, chamada Andressa. Tinha um metro e setenta de altura, porte atlético, bumbum grande e seios que cabiam na palma da mão. Ele só entrava na loja pra comprar balas e chicletes quando ela estava lá; do contrário, nada feito. Ela trabalhava num balcão em que os doces estavam atrás dela, e ele geralmente escolhia os doces que estavam nas prateleiras de baixo. Nem gostava tanto dos doces que escolhia, só comprava pra ver a Andressa, sempre prestativa, se abaixando para pegar os pedidos do cliente fiel. E Andressa, sem se dar conta, sempre abaixava-se de bruços, empinando a bunda, para deleite do jovem. Na maioria das vezes, usava calça comprida - mas quando usava minissaia, ele aproveitava o balcão de vidro para, discretamente, ver a calcinha - geralmente branca e estampada com desenhos de bichinhos ou flores. De quebra, imaginava os peitinhos dela, àquela altura com os bicos pra baixo, balançando enquanto ele a comia por trás - sonho impossível de realizar, segundo ele. Depois de voltar pra casa, se masturbava pensando nela e comendo o doce que acabara de comprar. No final daquele ano, Andressa se casou com um professor e mudou de cidade. Nunca mais a viu - e nunca mais entrou na doceria.
A segunda era a bibliotecária da escola onde estudava, na oitava série. Era Bianca, o nome dela. O estereótipo da garota perfeita, que só faltava ter asinhas de anjo. Vinte anos, noiva há dois (com o mesmo rapaz que namora desde os catorze), pele branca, lourinha, olhos verdes, virgem (dizem), um metro e sessenta e cinco, seios quase triangulares se assemelhando a duas fofas pirâmides, nádegas fartas, bom-caráter, a primeira da turma (estudou no mesmo colégio, do maternal ao terceiro ano médio), estudante de enfermagem, usava óculos, atenciosa, simpática, prestativa, disposta a ajudar a todos, católica praticante, freqüenta a missa todos os domingos, tem um terço de prata adornando o pulso direito. Era também canhota e libriana (o rapaz se atenta aos mínimos detalhes; dos atuais alunos, ele era o único que sabia o signo da jovem, pois viu ao acaso, na ficha de inscrição, que ela fazia aniversário em 17 de outubro). Mas todos esses detalhes não eram nada perto do essencial: o indefectível anelzinho dourado no dedo anular da mão direita.
Desde que a conheceu, ele reparou que Bianca tinha algo de especial. Ex-aluna da escola, começou a trabalhar como bibliotecária porque o curso de enfermagem tinha as mensalidades altas e ela estava disposta a construir a própria vida. Além disso, juntaria dinheiro para o enxoval do casamento, que seria no início do ano seguinte. Não demorou muito a se popularizar entre os alunos pela beleza e competência, principalmente no dom de auxiliar os alunos com dificuldades. No primeiro dia de aula, o rapaz se inscreveu na biblioteca, como o regulamento interno da escola exigia.
- Bom dia - disse-lhe a jovem, quando ele veio ao balcão.
- Bom dia. Nova por aqui?
- Sim. Bem, na verdade, eu estudei aqui a vida toda, e me formei no ensino médio há mais de dois anos. Estou começando a trabalhar aqui hoje.
- Legal, boa sorte - disse ele, simpaticamente, já quase encantado com a beleza e a vivacidade da moça. - Me chamo Francisco. Como se chama?
- Bianca. Prazer em conhecê-lo - disse-lhe, estendendo a mão e possibilitando-lhe ver a reluzente aliança.
Desde então, Bianca foi ocupante de grande parte dos sonhos do jovem Francisco. Sua graciosidade feminina atraía a todos os meninos com hormônios em ebulição, e principalmente a Francisco. Não por acaso: Bianca era como uma santa, mas imaginava que teria que ter um demônio escondido. Não raro, enquanto ela estava fora do balcão e organizava a bagunça das mesas, quando o via dava um sorriso maroto, como se perguntasse: "Oi, Chiquinho, tudo bem?". Depois virava-se de costas continuando o trabalho, deixando-o ver o bumbum farto que tantos sonhos lhe proporcionava. Aí, ele a imaginava vestida como a mais vulgar das prostitutas, com um corpete vermelho, cinta-liga e sem calcinha. Afinal de contas, ela era loura natural.
No final daquele ano, porém, ela iria deixar a escola onde trabalhava, pois o futuro marido iria custear o curso de enfermagem, possibilitando a ela realizar o sonho de ser enfermeira e trabalhar em comunidades carentes. Mas havia o último dia, de despedida discreta. Ela fez questão de se despedir dos alunos e colegas de trabalho. Fazendo isso um por um, diga-se.
Na sua vez, Francisco lhe beijou a mão direita e, principalmente a aliança de noivado, que trocaria de mão dentro de alguns meses. Fez questão de se lembrar do perfume das mãos de Bianca. De noite, ao dormir, sonhou novamente com a ex-bibliotecária e futura enfermeira. No sonho, estavam no banheiro do colégio. Ela lhe tirou as calças e as cuecas e, com a mão esquerda (pois era canhota), acariciou-lhe a genitália. Com a mão direita, acariciou o rosto de Francisco. Prontamente, ele chupou o dedo anular, o da aliança.
Francisco acordou às quatro da manhã, com as partes meladas. Foi ao banheiro e se lavou, extasiado, tendo a mesma sensação que sentiu quando tinha dez anos de idade. Só lamentou não ouvir a voz de Bianca, lhe elogiando e ameaçando suavemente lhe matar caso ele contasse alguma coisa.

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